domingo, 31 de julho de 2011

Festa de Santana recebe título hoje

A secular Festa de Sant'Ana de Caicó, celebrada há 263 anos na capital do Seridó potiguar, ganha motivo extra para se orgulhar: durante a programação de encerramento hoje, o evento receberá o importante título de Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, reconhecimento concedido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. A solenidade de entrega da condecoração terá a presença do bispo Diocese de Caicó, Dom Manuel Delson Pedreira da Cruz, e do prefeito Bibi Costa, que irão receber o título das mãos de representantes do Iphan. Essa é a terceira manifestação religiosa a integrar a seleta lista do Livro das Celebrações.



A celebração da Festa de Nossa Senhora Sant'Ana, em Caicó, é uma das tradições católicas mais importantes do Rio Grande do Norte
"Esse registro no Livro das Celebrações é equivalente a um tombamento de edificações históricas", explicou Hélio de Oliveira, restaurador do setor de museu da Fundação José Augusto. "Vale salientar que esse título não é permanente, o Iphan estará avaliando periodicamente a Festa  para saber se ela continuará sendo realizada dentro dos critérios avaliados. Por isso, é fundamental manter a tradição dos festejos", avalia. Segundo Oliveira, o processo para conferir o título de Patrimônio Imaterial é demorado, e requer uma série de estudos que vão desde a verificação de sua realização continuada até carga de tradições que carrega.

Desde 2007 que o Iphan realiza o levantamento das referências culturais da Festa de Sant'Ana. "Esse reconhecimento será muito importante para incrementar o turismo, pois confere visibilidade nacional e chancela a origem tradicional do evento. Acredito ser uma honra para a Festa receber esse título", aposta Hélio. Um efeito prático imediato, previsto Iphan, é a maior capacidade para elaborar projetos que visem a preservação da festa.

Entre as diretrizes estabelecidas durante o processo de registro, destaca-se a necessidade de implantação de ações que incentivem e garantam a transmissão dos saberes populares como a preparação do chouriço e o ofício do bordado; a adoção de um Programa de Educação Patrimonial em escolas da rede pública para difundir o conhecimento e potencializar a preservação do patrimônio cultural; e, por fim, a criação de um Memorial de Sant'Ana mais a elaboração de um roteiro histórico voltados para a divulgação dos principais monumentos da região. "É uma grande satisfação para a Igreja, e há todo um sentimento simbólico que nos enche de orgulho", garante o bispo Dom Manuel Delson.

Além da Festa de Sant'Ana de Caicó, apenas outras duas manifestações populares religiosas, são registradas no Iphan como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil: o Círio de Nazaré, em Belém (PA), procissão realizada a partir de 1792; e a Festa do Divino Espírito Santo de Pirenópolis (GO), celebrada desde 1819 - o evento religioso da capital paraense foi pioneiro, está inscrito desde 2004 no Livro das Celebrações, enquanto a festa do município goiano  entrou na lista em abril de 2010. 

Entrega do título de Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, será às 16h30, na Catedral de Sant'Ana.

Festa movimenta economia da cidade

Os dirigentes da Casa do Empresário, instituição que reúne as entidades de classe do comercio de Caicó, confirmam que a Festa de Sant'Ana movimenta financeiramente a cidade de modo a aquecer as vendas nas lojas. As lojas de venda de roupas, calçados, os restaurantes, hotéis e pousadas são beneficiadas.

O presidente da Câmara de Dirigente Lojista (CDL), Suerdiek Torres, disse que a injeção financeira no comercio local é visível. "As pessoas que vêm para cá, de alguma forma se preparam seja no vestuário ou calçados, alimentação, deixando recursos. Economicamente isso impulsiona os negócios", disse. O comércio é o setor que mais se destaca neste período. Suerdiek Torres  afirma que são poucos os que não conseguem de alguma forma tirar vantagem do momento. "Os ramos de alimentação, moda, hospedagem, e tudo o que diz respeito a beleza, sejam os salões, ou perfumarias, sempre atingem suas metas. É interessante que tem pessoas que esperam a festa de Sant'Ana para colher um fruto do trabalho de um ano inteiro", disse.

Ele confirma que após a festa, a Casa do Empresário vai realizar pesquisa para identificar quais os setores conseguiram se sair melhor com a vinda dos visitantes, e com os consumidores locais, até pra saber se neste ano houve melhora no desempenho de cada um, se foi igual ou pior.A pesquisa vai fazer um diagnóstico completo, mas Suerdiek Torres já admite um certo receio  com relação à pouca movimentação deste ano. "Eu particularmente acho que a festa ainda não é o que a gente esperava. Muitos afirmam que a festa só começou pra valer depois de quarta-feira, 27 de julho. Em anos anteriores nós tínhamos 10 dias de eventos sociais intensos e isso mudou. Temos que destacar que quanto mais dias de festa tivermos, mais a economia local é impulsionada, como isso não ocorre mais, ou seja, os eventos nos clubes ou na Ilha só são realizados nos últimos 5 dias, a economia está sentindo", diz. A expectativa é que o número de visitantes ultrapasse as 100 mil pessoas. "Sem medo de errar eu digo que mais de 100 mil pessoas circulam em nossa cidade neste período", informa.

"É uma festa que ultrapassa os limites do nosso Estado"

Hoje, após o encerramento dos festejos da padroeira da Diocese de Caicó, Sant'Ana, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN, vai entregar ao Bispo Dom Delson Pedreira da Cruz, e ao pároco Padre Edson Medeiros, o titulo de patrimônio imaterial do Brasil da festa local.Nós conversamos com o pastor da Igreja no Seridó, sobre o assunto:

Qual a importância deste título para a cidade?

O IPHAN tem autoridade para fazer este reconhecimento. Isto é muito importante, pois a Festa de Sant'Ana tema sua grandeza, suas características, realmente para nós é um reconhecimento muito importante.

Com isso, qual a responsabilidade da Igreja católica do Estado?

Nós temos que preservar este evento tal qual como ele começou, com suas características e seu jeito de ser. A Igreja tem que fazer aquilo que sempre fez que é dar um sentido religioso na vivencia das novenas, das caminhadas, da abertura, do encerramento, das procissões. Tudo isso já está cristalizado como uma característica própria do evento, e nós temos que trabalhar para isso. Além disso, temos que manter a parceria com o Poder Executivo, para que faça sua parte no sentido de acolher os visitantes e os devotos de Sant'Ana. Nós temos que cuidar de tudo isso, cuidar deste Patrimônio, que é a Festa de Sant'Ana.

Qual a importância da festa para a Igreja Católica do Estado?

Para a Diocese de Caicó, Sant'Ana é a nossa patrona. Nós estamos dentro de uma província eclesiástica, então juntamente com as outras festas tem a sua importância porque movimenta muita gente que vem de Natal e Mossoró. Realmente o caicoense tem uma devoção muito grande. É uma festa realmente que ultrapassa os limites da nossa região e também do nosso Estado.

Quais as características que a distingue das outras festas religiosas?

Eu sei que o Seridó, tem sua marca própria da devoção, do envolvimento das pessoas, do nível de participação, da alegria contagiante do seridoense durante a festa de Sant'Ana, tudo isso é muito bonito. Eu vejo algo parecido em Mossoró, na festa de Santa Luzia. Em Natal eu não posso dizer por que não participei dos festejos da padroeira de lá, mas eu creio que existe uma religiosidade muito grande em todo o Estado, mas o Seridó tem as suas características próprias que todos conhecem.

Porque Sant'Ana sempre foi tão venerada pelos devotos do Seridó e de todas as partes do país?

A devoção à Sant'Ana é tradicional. Como o Brasil foi colonizado pelos irmãos portugueses, eles trouxeram também esta dimensão religiosa, então desde este período que existe esta devoção. Sant'Ana fala da família como educadora de Nossa Senhora, todos os aspectos bíblicos da avó de Jesus. Então esta compreensão da importância da família e da formação do cristão como pessoa é que faz com que Sant'Ana ocupe um lugar privilegiado. Na nossa cultura, no passado a mulher já ocupava um espaço muito importante. A mulher como educadora, isso realmente marcou, e criou uma identificação com a senhora Sant'Ana.

Sant'Ana e o 'Caicocentrismo'

Roberto Fontes*

Hoje, quando a imagem da Senhora Sant'Ana completar o percurso de pouco mais de três quilômetros pelas ruas e avenidas do centro de Caicó, carregada nos ombros de fieis devotos e peregrinos, completa-se 263 anos de uma tradição iniciada em 26 de julho de 1748. Naquela data, o padre Francisco Alves Maia ergueu um cruzeiro onde hoje está construída a Catedral de Sant'Ana e inaugurou o culto à mãe de Maria e avó de Jesus, prática que se irradiou por toda a região do Seridó.

De uma festa interiorana, circunscrita a algumas cidades seridoenses, a Festa de Sant'Ana tomou dimensões épicas ao longo destes dois séculos e meio de existência, principalmente pela pujança da celebração que é feita em Caicó. Não há, aqui, qualquer menosprezo às festas realizadas em Currais Novos, Santana do Matos, Santana do Seridó, Campo Grande (no Oeste) e até mesmo em Natal. Mas o fato é que a Festa de Sant'Ana de Caicó saiu do gueto e tomou dimensão nacional.

Tanto que o IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - vai entregar hoje às mãos do Bispo Diocesano D. Manoel Pedreira o certificado de Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil à Festa de Sant'Ana de Caicó. O reconhecimento foi feito desde o ano passado, mas hoje será oficializado na presença dos milhares de devotos e peregrinos que, repetindo um gesto de fé e devoção iniciado há 263 anos, estão em Caicó para a Procissão de Encerramento.

É a terceira festa religiosa brasileira a ter a chancela do IPHAN como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Significa simbolicamente que, de hoje em diante, a Festa de Sant'Ana de Caicó terá a mesma importância cultural para o Brasil que o Círio de Nazaré em Belém do Pará tem, desde 2004, e a Festa do Divino Espírito Santo de Pirenópolis, Goiás, desde 2010, e outras 19 manifestações culturais das mais diversas regiões. Mas por que a Festa de Sant'Ana de Caicó alcançou este status?

Com a palavra o IPHAN: "É uma celebração tradicional que ocorre há mais de 260 anos e reúne diversos rituais religiosos, profanos e outras manifestações culturais da região do Seridó norte-rio-grandense. Além de uma celebração representativa para este município (Caicó), ela permite também vislumbrar a diversidade das manifestações culturais e possibilita a compreensão abrangente do Seridó potiguar". Tem algo mais: Sant'Ana é considerada pelos devotos um elo entre Deus e a salvação.

Como bem disse o procurador federal aposentado e ex-prefeito de Caicó Francisco de Assis Medeiros, o povo aproveita a Festa de Sant'Ana para viver tradições, praticar a fé e mostrar a sua devoção, amor e emoção à padroeira. "Na Festa de Sant'Ana de Caicó, a tradição secular mistura-se aos costumes mais modernos. Velhos e jovens, abraçados à mesma bandeira religiosa, celebram o vigor da cultura seridoense, sempre renovada através dos séculos". Definitivamente, é isso mesmo.

E aquele 'Caicocentrismo' do título? A internet abriga um sítio extremamente bem humorado chamado Desciclopédia, uma espécie de Wikipédia do B. Lá, um dos verbetes mais interessantes e engraçados é justamente o 'Caicocentrismo', que tenta explicar com humor o propalado bairrismo do caicoense. Mas, afinal, o que é o 'Caicocentrismo'? É a teoria, segundo a qual, Caicó é o centro do universo. Agora, depois que a Festa de Sant'Ana é Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, alguém duvida?
 
* Jornalista, devoto de Sant'Ana, editor do www.bardeferreirinha.blogspot.com

Nenhum comentário:

Postar um comentário